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A origem da residência médica e da cultura de exaustão

Por Equipe MedlibriAtualizado em 4 min de leitura

Pintura de quatro médicos reunidos numa biblioteca.
Os quatro doutores do Johns Hopkins, John Singer Sargent, 1906.

A residência em cirurgia como conhecemos hoje foi desenhada por William Halsted, cirurgião do Johns Hopkins Hospital, no fim do século 19, ao lado da residência em clínica médica do mesmo hospital, que veio primeiro. Ele era brilhante, foi pioneiro da anestesia local e desenvolveu dependência de cocaína durante os próprios experimentos, alguns anos antes de estruturar o programa. A formação longa e pesada que ele instituiu, com oito anos de hospital em média e quase sempre sem salário, não veio de evidência sobre formação médica: veio do modelo alemão, adaptado por ele ao próprio gosto e sem teste algum, e se espalhou porque os discípulos dele fundaram, em outros hospitais, programas inspirados nele e adaptados.

Quem entra na medicina aprende cedo que residência é sinônimo de exaustão. A carga horária pesada aparece como se fosse um fato da natureza da profissão, algo que decorre da complexidade do trabalho e da gravidade do que está em jogo.

Ela tem autor, data e endereço. Saber quais são não muda a escala do próximo mês, mas muda o peso que a tradição deveria ter no seu julgamento sobre como estudar e como trabalhar.

Quem desenhou a primeira residência em cirurgia

William Stewart Halsted foi um dos cirurgiões mais influentes da história da medicina, e a influência é merecida. Ele defendeu a assepsia rigorosa quando isso ainda se discutia, introduziu a luva cirúrgica de borracha, e desenvolveu técnicas que tornaram as operações mais seguras, como as de hérnia, tireoide e mama.

Em 1884, cirurgião em Nova York, ele leu sobre as propriedades anestésicas da cocaína e passou a experimentar a substância em si mesmo e em colegas. Com o assistente Richard Hall, foi o primeiro a usar a injeção de cocaína junto ao tronco de um nervo para bloquear a dor, e, com a mesma equipe, levou a técnica a nervos do braço e da perna. Saiu dali também o que ninguém naquele momento sabia prever: a substância criava dependência, ele ficou dependente, e a carreira em Nova York desabou.

Em 1886 foi internado no Butler Hospital, em Providence. No Butler, o tratamento que ele recebeu foi trocar a cocaína pela morfina, e ele saiu de lá dependente de morfina. As memórias secretas de William Osler, um dos fundadores do Johns Hopkins, escritas à mão e publicadas só em 1969, registram que ele nunca conseguiu reduzir a dose abaixo de três grãos diários de morfina. Segundo relato publicado décadas depois, William Welch, outro fundador, teria contado, internado no Johns Hopkins pouco antes de morrer, em 1934, que Halsted teve recaídas de tempos em tempos até o fim da vida.

Como a formação longa e árdua virou parte do desenho

Em 1889 ele funda no Johns Hopkins o primeiro programa formal de treinamento cirúrgico dos Estados Unidos, e o dirige por 33 anos. A estrutura era uma pirâmide: muitos internos na base, poucos assistentes no meio, uma única vaga de residente-chefe no topo, permanência por tempo indeterminado e promoção sem garantia.

A parte que ele acertou é grande. Antes disso, a formação prática do cirurgião era irregular, dependia de aprendizado informal com um mestre e variava enormemente de lugar para lugar. O programa dele deu estrutura ao que era improviso.

A parte que ele impôs é a que sobrou como cultura. Não havia estudo sobre quanto tempo de exposição forma um cirurgião. O modelo veio do que ele tinha visto nas clínicas alemãs, adaptado ao gosto dele, sem teste algum. A duração do treinamento não tinha regra escrita. Em 1904, no discurso "The Training of the Surgeon", em Yale, ele disse que o número de anos do residente-chefe não tinha sido fixado, e que queria um sistema que levasse os melhores jovens do país a dedicar suas energias e suas vidas a elevar o padrão da cirurgia.

O ponto não é que ele era dependente. É que ninguém mediu nada, e o homem que definiu a régua passou esses 33 anos, ao que tudo indica, dependente de morfina, escondendo isso de quase todos.

Por que o modelo se espalhou pelo mundo inteiro

Um desenho local vira padrão global quando as pessoas formadas por ele fundam os programas seguintes. Foi o que aconteceu.

Dos dezessete residentes-chefe que Halsted formou, vários fundaram programas em outras instituições, adaptando a estrutura que conheciam. O formato, com adaptações, virou a base da residência na América do Norte.

Com a estrutura veio a mentalidade. A ideia de que a formação se mede em anos de sacrifício, e de que aguentar é prova de vocação, atravessou mais de um século sem nunca ter sido a conclusão de um estudo. Em 1904, a quem achava o treinamento longo demais, ele respondeu que aquelas vagas não eram para quem se cansa cedo do estudo da profissão. Ela foi herdada, não demonstrada.

O que isso muda para quem está estudando agora

A herança não fica só no hospital. Ela aparece no cronograma de quem se prepara para a prova, na forma de uma equação silenciosa: quanto mais horas eu estudar e mais exausto eu chegar, mais perto estou da aprovação.

Essa equação é a mesma de 1889, aplicada a um contexto onde ela nunca foi testada. E existe evidência acumulada, hoje, sobre o que faz o estudo render: recuperar informação da memória rende mais que reler, espaçar as revisões rende mais que concentrá-las, e dormir é parte do processo de fixar, não uma pausa dele.

O ano é 2026. Nada obriga a manter a régua de um homem que a definiu por convicção, num contexto que não existe mais, com uma dependência que a medicina da época já nomeava, mas entendia mal.

Vale ler junto o que a evidência recente mostrou quando alguém finalmente testou o efeito da carga horária longa sobre a formação e sobre os pacientes, porque o resultado não confirma a tradição.

Perguntas frequentes

Quem criou a residência em cirurgia?

A residência em cirurgia como conhecemos hoje foi desenhada por William Stewart Halsted, que em 1889 fundou no Johns Hopkins o primeiro programa formal de treinamento cirúrgico dos Estados Unidos e o dirigiu por 33 anos. A residência em clínica médica do mesmo hospital veio primeiro. O formato de Halsted, com adaptações, virou a base da residência na América do Norte.

Halsted era viciado em cocaína?

William Halsted desenvolveu dependência de cocaína durante os próprios experimentos com a substância como anestésico, iniciados em 1884, em Nova York. Em 1886 foi internado no Butler Hospital, em Providence, onde o tratamento foi trocar a cocaína pela morfina, e saiu de lá dependente de morfina. As memórias secretas de William Osler registram que ele nunca conseguiu reduzir a dose abaixo de três grãos diários.

Como era a estrutura da primeira residência de Halsted?

A primeira residência de Halsted era uma pirâmide: muitos internos na base, poucos assistentes no meio e uma única vaga de residente-chefe no topo, com permanência por tempo indeterminado e promoção sem garantia. A duração do treinamento não tinha regra escrita. O modelo veio do que ele tinha visto nas clínicas alemãs, adaptado ao gosto dele, sem teste algum.

De onde vem a cultura de exaustão da residência médica?

A cultura de exaustão da residência foi herdada do desenho de Halsted, e não demonstrada por estudo algum. O modelo se espalhou porque, dos dezessete residentes-chefe que ele formou, vários fundaram programas em outras instituições, adaptando a estrutura que conheciam. Com a estrutura veio a ideia de que aguentar é prova de vocação, que atravessou mais de um século sem nunca ter sido a conclusão de um estudo.

Referências

  1. James R. Wright Jr. e Norman S. Schachar, Necessity is the mother of invention: William Stewart Halsted's addiction and its influence on the development of residency training in North America, Canadian Journal of Surgery, 2020, volume 63, número 1, páginas E13 a E19.
  2. Howard Markel, An Anatomy of Addiction: Sigmund Freud, William Halsted, and the Miracle Drug Cocaine, Pantheon, 2011.
  3. William Osler, The Inner History of the Johns Hopkins Hospital, editado por Donald G. Bates e Edward H. Bensley, Johns Hopkins Medical Journal, 1969, volume 125, páginas 184 a 194.
  4. William Halsted, discurso The Training of the Surgeon, Yale, 1904, publicado no Bulletin of the Johns Hopkins Hospital, 1904, volume 15, páginas 267 a 275.
  5. Antonio López-Valverde e colaboradores, The surgeons Halsted and Hall, cocaine and the discovery of dental anaesthesia by nerve blocking, British Dental Journal, 2011, volume 211, número 10, páginas 485 a 487.

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