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Dormir ou estudar para a prova de residência

Entre virar a noite e dormir, a pesquisa sobre sono e memória favorece dormir, também para quem estuda para a prova de residência médica. O motivo é que o sono não é pausa do aprendizado, é parte dele: é dormindo que o cérebro consolida boa parte do que você estudou durante o dia. Cortar sono para caber mais matéria derruba a sua capacidade de guardar o que você estudar no dia seguinte, e a pesquisa sobre consolidação indica que também atrapalha a fixação do que veio antes. E a prova é daqui a meses, não amanhã.
Todo estudante de medicina já sentiu culpa por fechar o livro e ir dormir. A cena é conhecida: o cronograma atrasado, a matéria acumulada, e a sensação de que uma hora a mais na madrugada compra alguma coisa.
Para a prova de amanhã, às vezes compra. Para a prova de residência, que está a meses de distância, a conta se inverte, e vale entender por quê antes de decidir a rotina do próximo semestre.
O que acontece com a matéria estudada enquanto você dorme
Dormir consolida memória de forma ativa. Segundo o modelo mais aceito hoje, descrito numa revisão de 2013 que reúne mais de um século de pesquisa sobre sono e memória, durante o sono de ondas lentas o hipocampo reativa as memórias adquiridas naquele dia e as redistribui para o córtex, que é onde a informação passa a viver a longo prazo. O termo técnico é consolidação, e a palavra descreve bem: o material fica firme.
Isso significa que estudar e dormir não competem pelo mesmo tempo. Eles são duas metades do mesmo processo, e cortar a segunda enfraquece a primeira.
Um estudo de 2007, publicado na Nature Neuroscience, mediu o outro lado da conta: o que acontece com o que você tenta aprender depois de uma noite sem dormir. Vinte e oito adultos jovens saudáveis foram sorteados entre dormir normalmente ou passar cerca de 35 horas acordados antes de ver uma série de imagens. Dois dias depois, já recuperados, os que tinham ficado sem dormir reconheceram as imagens com desempenho cerca de 19 por cento pior do que o grupo que dormiu. Não é que eles esqueceram o que já sabiam: eles guardaram pior o que viram depois da noite em claro.
A noite em claro não tira só horas do seu descanso. Ela tira valor das horas que você vai estudar no dia seguinte.
Por que você não sente o prejuízo na hora
Se a perda fosse óbvia, o problema se resolveria sozinho. O incômodo é que ela não é.
A privação de sono atrapalha também a capacidade de perceber a própria queda. Num estudo com 48 adultos saudáveis, publicado em 2003, quem dormiu 6 horas ou menos por noite durante duas semanas acumulou perdas de desempenho equivalentes a até duas noites inteiras sem dormir. A sensação de sono subiu nos primeiros dias e depois quase parou de subir, e os autores concluíram que os participantes não percebiam o tamanho da própria queda. A régua interna para de acompanhar a performance, e as duas coisas se escondem uma na outra.
Isso conversa direto com outro ponto que vale para quem estuda por questão: se a sua percepção sobre o próprio desempenho já é frágil quando você está descansada, ela fica pior quando você não está. Numa revisão publicada no JAMA em 2006, com médicos e residentes, a nota que eles davam a si mesmos teve relação pequena, nula ou invertida com a avaliação externa em 13 de 20 comparações. Corrigir questão com sono atrasado é fazer autoavaliação com o instrumento desregulado.
E quando o cronograma já está atrasado
Aqui vem a objeção honesta, e ela merece resposta em vez de um conselho de autocuidado. Se eu não estou dando conta do cronograma dormindo pouco, dormir mais não vai atrasar tudo?
Vai, se o cronograma continuar igual. A questão é que o cronograma que não cabe raramente é um problema de horas disponíveis. Costuma ser um problema do que ocupa as horas.
Um plano montado com videoaula, resumo, questões e flashcards no fim do dia parece completo e é, em boa parte, passivo. Resumir e reler foram classificados como técnicas de baixa utilidade numa revisão ampla de 2013, que avaliou dez técnicas de estudo, e num experimento de 2006 com 180 universitários da Washington University em St. Louis quem só releu um texto se sentiu mais seguro do que quem se testou, mesmo lembrando menos uma semana depois. Videoaula não foi testada nesses estudos, mas assistir também quase não exige que você recupere nada da memória, que é o esforço que fixa. O tempo vai embora inteiro, a sensação é boa, e o que sobra em julho é pouco.
Trocar duas horas de videoaula por uma hora de questões corrigidas com atenção costuma liberar exatamente a hora que estava faltando para dormir, sem tirar conteúdo do plano.
- Comece cortando o que é passivo, não o que é difícil. Difícil costuma ser o que rende.
- Coloque o estudo que exige mais raciocínio no horário em que você está mais desperto, e deixe revisão leve para o fim do dia.
- Estabeleça um horário de encerrar, e trate ele como trata o horário de um plantão.
- Se precisar cortar alguma coisa numa semana ruim, corte volume, não sono. Volume você recupera na semana seguinte.
O que este texto não está dizendo
Não está dizendo que dormir aprova. Está dizendo que sono é insumo de estudo, e que tratá-lo como luxo é uma conta que fecha errado no prazo de uma prova de residência.
Também não está prometendo que sua rotina cabe em oito horas de sono todas as noites, porque internato e plantão existem. A régua possível é outra: proteger o sono como se protege um compromisso marcado, e quando ele for impossível numa semana, saber que aquela semana rendeu menos do que o calendário sugere, e planejar a revisão com isso em conta.
A Medlibri foi desenhada em torno dessa ideia de eficiência em vez de volume, com repetição espaçada trazendo o conteúdo de volta na hora em que ele está prestes a escapar. Mas a parte que nenhuma plataforma faz por você é fechar o computador.
Perguntas frequentes
O que o sono faz com a matéria que estudei durante o dia?
Dormindo, o cérebro consolida de forma ativa boa parte do que você estudou durante o dia. Segundo o modelo mais aceito hoje, descrito numa revisão de 2013, durante o sono de ondas lentas o hipocampo reativa as memórias adquiridas naquele dia e as redistribui para o córtex, onde a informação passa a viver a longo prazo. Estudar e dormir são duas metades do mesmo processo.
Virar a noite estudando atrapalha o que eu aprendo no dia seguinte?
Sim, uma noite em claro piora a capacidade de guardar o que você vê depois dela. Num estudo de 2007 publicado na Nature Neuroscience, quem passou cerca de 35 horas acordado antes de ver uma série de imagens as reconheceu, dois dias depois e já recuperado, com desempenho cerca de 19 por cento pior do que o grupo que dormiu normalmente.
Dá para perceber quando a falta de sono está prejudicando o estudo?
Nem sempre, porque a privação de sono atrapalha também a capacidade de perceber a própria queda. Num estudo de 2003 com 48 adultos saudáveis, quem dormiu 6 horas ou menos por noite durante duas semanas acumulou perdas de desempenho equivalentes a até duas noites inteiras sem dormir. A sensação de sono quase parou de subir depois dos primeiros dias, e os autores concluíram que os participantes não percebiam o tamanho da própria queda.
O que cortar quando o cronograma de estudo está atrasado?
Com o cronograma atrasado, corte primeiro o que é passivo, não o que é difícil, e não corte sono. Resumir e reler foram classificados como técnicas de baixa utilidade numa revisão ampla de 2013, e trocar duas horas de videoaula por uma hora de questões corrigidas com atenção costuma liberar a hora que faltava para dormir. Numa semana ruim, corte volume, que se recupera na semana seguinte.
Referências
- Yoo SS e colaboradores, Nature Neuroscience, 2007, volume 10, número 3, páginas 385 a 392.
- Rasch B e Born J, Physiological Reviews, 2013, volume 93, páginas 681 a 766.
- Van Dongen HPA e colaboradores, Sleep, 2003, volume 26, número 2, páginas 117 a 126.
- Davis DA e colaboradores, JAMA, 2006, volume 296, número 9, páginas 1094 a 1102.
- Dunlosky J e colaboradores, Psychological Science in the Public Interest, 2013, volume 14, número 1, páginas 4 a 58.
- Roediger HL e Karpicke JD, Psychological Science, 2006, volume 17, número 3, páginas 249 a 255.


