Blog

Carga horária da residência médica: mais horas formam melhor?

Quando alguém finalmente testou, jornada mais longa na residência médica não produziu resultado melhor. Grandes ensaios randomizados nos Estados Unidos compararam programas com limite rígido de horas e programas com plantões longos, e mediram mortalidade de pacientes em trinta dias e desempenho dos residentes em prova. O grupo que trabalhou mais não levou vantagem. O que a evidência aponta como lacuna da formação é outra coisa: autonomia para decidir.

Por Equipe Medlibri. Atualizado em

A discussão sobre carga horária na medicina costuma virar discussão sobre caráter. De um lado, quem se formou em jornadas longas e vê o pedido por equilíbrio como fraqueza. Do outro, quem entrou depois e não aceita que exaustão seja sinônimo de compromisso.

A briga é velha e não se resolve por opinião, porque as duas partes acham que estão defendendo a qualidade da formação. O que quase nunca entra na conversa é que a pergunta foi testada, com desenho de pesquisa sério, e que o resultado existe.

O que aconteceu quando testaram jornada longa contra jornada limitada

Nos Estados Unidos, dois grandes ensaios sortearam programas de residência inteiros entre dois regimes: um com as regras rígidas de limite de plantão, outro com flexibilidade para jornadas mais longas. Depois mediram os desfechos que importam: o que aconteceu com os pacientes e o que aconteceu com o aprendizado.

O primeiro deles, na cirurgia, comparou os dois regimes olhando complicações e mortalidade dos pacientes em trinta dias, além da satisfação dos residentes. A flexibilidade para jornadas longas não se mostrou pior para os pacientes, e também não se mostrou melhor.

O segundo, na clínica médica, seguiu a mesma lógica e olhou duas coisas separadas. A mortalidade dos pacientes em trinta dias não piorou com a jornada flexível. E o desempenho dos residentes na prova de conhecimento não melhorou com as horas a mais.

O grupo que trabalhou mais horas não aprendeu mais. Esse é o achado que a tradição não previa.

Vale a honestidade sobre o que os estudos dizem e o que não dizem. Eles não mostram que jornada longa é inofensiva em qualquer dose, e não mediram tudo que importa numa formação. O que eles derrubam é a premissa de que mais horas, por si, produzem médico mais preparado. Essa premissa não se sustentou no teste.

Se não são as horas, o que está faltando na formação

Existe um problema real de preparo, e ele aparece em outro lugar da literatura.

Numa pesquisa com 91 diretores de programas de subespecialização cirúrgica, 66 por cento consideraram que o cirurgião recém-chegado, com os cinco anos de residência cumpridos, não estaria pronto para operar trinta minutos sem supervisão numa cirurgia de grande porte. E 38 por cento avaliaram que ele chegava sem assumir o paciente como seu.

Repare que essas pessoas cumpriram jornadas longuíssimas. A lacuna apontada não é de exposição nem de horas. Em 2017, o conselho americano de cirurgia deu nome ao que estava faltando, e a palavra foi autonomia.

Autonomia é o treino de decidir e responder pela decisão. É diferente de assistir alguém decidir, mesmo que por muitas horas.

Onde a autonomia se perde no caminho

Seis anos de faculdade e mais alguns de residência produzem muitas horas dentro do hospital, e nem toda hora dentro do hospital treina decisão.

  • A evolução escrita para o preceptor assinar treina redação, não conduta.
  • A prescrição que o chefe já ditou treina execução, não escolha.
  • O afastador segurado por duas horas treina resistência, não julgamento.

Nenhuma dessas atividades é inútil, e todas fazem parte de aprender. O problema é a proporção: quando elas ocupam quase todo o tempo, o que se acumula é presença, e presença não vira autonomia sozinha.

O que dá para treinar antes de chegar lá

Se você ainda é estudante, essa constatação tem um lado prático que costuma passar batido. A ferramenta mais acessível para treinar decisão fora do hospital é a questão clínica.

Uma boa questão de prova de residência apresenta um caso, esconde o diagnóstico e obriga você a escolher a conduta sozinha, sem ninguém confirmando antes. É treino de decisão em ambiente onde o erro custa um ponto, e não um paciente. É por isso que fazer questão vale mais que ler resumo, e é por isso que corrigir a questão com atenção vale mais que fazer o dobro delas.

A Medlibri foi pensada em torno disso: praticar decisão clínica com questões de prova, se preparando para o exame e para a hora em que a decisão for real. O que ela substitui é o tempo perdido, não o treino.

E fica a pergunta que a discussão geracional costuma atropelar. Se mais horas não produziram médico mais preparado, e o que falta é autonomia, o problema da formação não é quem quer dormir. Foi o desenho que confunde tempo de permanência com aprendizado, e esse desenho tem mais de cem anos.

Referências

  1. FIRST Trial, Bilimoria KY e colaboradores, New England Journal of Medicine, 2016.
  2. iCOMPARE, mortalidade: Silber JH e colaboradores, New England Journal of Medicine, 2019. Educação: Desai SV e colaboradores, New England Journal of Medicine, 2018.
  3. Mattar SG e colaboradores, Annals of Surgery, 2013.

Continue por aqui