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Como corrigir questões de prova de residência

Por Equipe MedlibriAtualizado em 5 min de leitura

Mapa antigo de ruas de Londres com marcas pretas onde houve mortes por cólera.
O mapa da cólera de Broad Street, John Snow, 1854.

Corrigir uma questão de prova de residência é terminar cada uma com uma pergunta, e não com um número. A pergunta é: o que exatamente me faltou aqui? Faltou conteúdo que eu não tinha estudado, faltou ler o enunciado com calma, ou eu tinha uma certeza errada? E em qual tópico, com nome? Quem só confere o gabarito usou a questão como termômetro. Quem responde essa pergunta usou a mesma questão como alavanca.

Estudar por questão virou consenso entre quem se prepara para a prova de residência médica, e com razão. O problema é que o consenso parou aí. Muita gente faz questão, bem menos gente corrige, e a palavra corrigir costuma significar conferir se acertou.

A diferença entre as duas coisas é o assunto deste texto, porque ela custa pouco tempo e muda o que cada erro deixa para você revisar.

O que significa corrigir uma questão, na prática

Corrigir é reconstruir o caminho que te levou até a alternativa que você marcou. Não é olhar a letra certa, ler o comentário e seguir. É parar por um minuto e responder quatro perguntas em sequência.

  • Por que a alternativa certa está certa? Diga com suas palavras, sem repetir o comentário.
  • Por que cada uma das outras está errada? A que parecia mais atraente merece atenção maior, porque foi ela que quase te pegou.
  • O que exatamente me faltou? Escolha um dos três: conteúdo que eu não tinha estudado, leitura apressada do enunciado, ou uma certeza que estava errada.
  • Em qual tópico, com nome? Cardiologia é grande demais para servir. Insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada é um tópico.

A quarta pergunta é a que mais gente pula, e é a única que produz uma lista útil. Sem nome de tópico, o erro vira sensação, e sensação não se revisa.

Repare que a questão acertada também tem correção. Acertar por eliminação, acertar no chute e acertar sabendo são três coisas diferentes que produzem o mesmo ponto na estatística. Só a terceira é conhecimento, e você é a única pessoa que sabe qual das três aconteceu.

Por que isso tem nome, e por que o nome importa

Essa parada para observar o próprio raciocínio se chama metacognição. O termo foi proposto por John Flavell, psicólogo do desenvolvimento em Stanford, ao longo dos anos 1970, e o artigo dele de 1979 na American Psychologist virou a referência clássica. Ele descreve a capacidade de pensar sobre o próprio pensamento: saber o que você sabe, saber o que você não sabe, e perceber a diferença.

O nome importa porque ele muda a natureza do trabalho. Enquanto o erro for um evento (errei a questão 47), a resposta possível é fazer mais questões. Quando o erro vira uma informação sobre a estrutura do que você sabe (eu confundo os critérios de dois diagnósticos parecidos), a resposta passa a ser específica, e uma revisão curta e dirigida ao ponto certo costuma valer mais que muitas questões a mais sobre o mesmo assunto.

Por que confiar na própria percepção não funciona

Aqui está a parte incômoda. A intuição sobre o próprio desempenho é um instrumento ruim, e isso foi medido em médicos.

Em 2006, uma revisão publicada no JAMA reuniu 17 estudos que comparavam a nota que médicos e residentes davam ao próprio desempenho com a avaliação que observadores externos faziam do mesmo desempenho. Em 13 das 20 comparações, a autoavaliação teve relação pequena, nula ou invertida com a competência medida de fora.

Invertida é a palavra que merece parar você. Em pelo menos um dos estudos, sobre infiltração de joelho em modelo simulado, a relação foi invertida: quanto mais confiante a pessoa se dizia, pior ela executava. Vários dos estudos encontraram a autoavaliação mais imprecisa em dois grupos: entre os menos habilidosos e entre os mais confiantes.

Se a sua sensação de domínio não acompanha o seu domínio, a correção precisa produzir evidência, não impressão.

É por isso que a correção termina com um tópico escrito, e não com um sentimento. O escrito é conferível na semana seguinte. O sentimento muda sem aviso, e não tem como ser conferido.

Termômetro ou alavanca: a diferença que aparece em meses

Quem responde a questão, confere o gabarito, vê o resultado e vai para a próxima usou aquela questão como termômetro. Ela mediu um estado e não mudou nada. Cem questões assim medem cem vezes.

Quem usa a mesma questão para dissecar por que cada alternativa estava errada, comparar com o que já sabia e traçar a relação entre as duas coisas usou a questão como alavanca. O segundo caminho é mais lento por questão, e é nele que o erro vira algo que você consegue revisar.

A conta costuma assustar quem está com o cronograma apertado, então vale dizer como estimativa: corrigir trinta questões assim pode levar mais tempo que conferir sessenta no gabarito. A régua não é quantas você fez hoje, é quantas você não erraria de novo.

Como começar amanhã, sem refazer o cronograma

  • Escolha um bloco menor. Se você faz cinquenta questões por dia, faça trinta e corrija as trinta.
  • Tenha um lugar só para os tópicos que apareceram. Uma lista corrida serve, desde que seja sempre a mesma.
  • Escreva o tópico com nome, e ao lado dele qual dos três motivos foi: conteúdo, leitura ou certeza errada.
  • Uma vez por semana, leia a lista antes de estudar. Os nomes que se repetem são o seu plano da semana, prontos.
  • Transforme em cartão de revisão o que for fato isolado, e em estudo de reconstrução o que for raciocínio inteiro. São coisas diferentes e pedem tratamento diferente.

O quinto item costuma ser o que resolve o incômodo de quem já tentou caderno de erros e abandonou. Caderno vira cemitério quando tudo entra nele igual. Fato isolado pede repetição espaçada. Raciocínio quebrado pede voltar ao assunto e reconstruir o caminho, explicando com suas palavras por que cada passo vale. Misturar os dois faz a revisão parecer inútil nos dois casos.

Onde uma plataforma ajuda, e onde ela não substitui você

Nada aqui depende de ferramenta. Papel e caneta fazem tudo isso, e por muito tempo foi assim que se fez.

O que a ferramenta resolve é a parte chata: guardar o tópico junto da questão que o gerou, trazer de volta na hora certa em vez de na hora que você lembrar, e mostrar quais nomes se repetem sem você precisar contar. A Medlibri foi desenhada em torno disso, com o caderno de erros e os cartões nascendo da própria questão que você acabou de errar.

A parte que continua sendo sua é a pergunta do começo do texto. Nenhum sistema responde por você o que exatamente te faltou naquela questão, e é justamente essa resposta que faz o resto funcionar.

Perguntas frequentes

Conferir o gabarito é o mesmo que corrigir a questão?

Conferir o gabarito não é corrigir: conferir só mostra se você acertou, e corrigir é reconstruir o caminho que levou você até a alternativa marcada. Quem confere e vai para a próxima usou a questão como termômetro, que mede um estado e não muda nada. Quem disseca por que cada alternativa estava errada e nomeia o tópico que faltou usou a mesma questão como alavanca.

O que é metacognição no estudo por questões?

Metacognição é a capacidade de pensar sobre o próprio pensamento: saber o que você sabe, saber o que você não sabe e perceber a diferença. O termo foi proposto por John Flavell, psicólogo do desenvolvimento em Stanford, ao longo dos anos 1970, e o artigo dele de 1979 na American Psychologist virou a referência clássica. Na correção de questões, ela é a parada para observar o próprio raciocínio.

Por que não dá para confiar na sensação de que eu sei a matéria?

A intuição sobre o próprio desempenho é um instrumento ruim, e isso foi medido em médicos. Uma revisão publicada no JAMA em 2006 reuniu 17 estudos, e em 13 das 20 comparações a autoavaliação de médicos e residentes teve relação pequena, nula ou invertida com a competência medida de fora. Por isso a correção termina com um tópico escrito, que é conferível na semana seguinte.

Como fazer um caderno de erros que não seja abandonado?

Para o caderno de erros não virar cemitério, separe o que é fato isolado do que é raciocínio quebrado, porque cada um pede tratamento diferente. Fato isolado pede repetição espaçada; raciocínio quebrado pede voltar ao assunto e reconstruir o caminho. Escreva cada tópico com nome e o motivo do erro (conteúdo, leitura ou certeza errada), e leia a lista uma vez por semana antes de estudar.

Referências

  1. John H. Flavell, Metacognition and cognitive monitoring: A new area of cognitive-developmental inquiry, American Psychologist, 1979, volume 34, número 10, páginas 906 a 911.
  2. Davis DA e colaboradores, JAMA, 2006, volume 296, número 9, páginas 1094 a 1102.

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