Como corrigir questões de prova de residência
Corrigir uma questão de prova de residência é terminar cada uma com uma pergunta, e não com um número. A pergunta é: o que exatamente me faltou aqui? Faltou conteúdo que eu não tinha estudado, faltou ler o enunciado com calma, ou eu tinha uma certeza errada? E em qual tópico, com nome? Quem só confere o gabarito usou a questão como termômetro. Quem responde essa pergunta usou a mesma questão como alavanca, e é essa diferença que aparece meses depois.
Estudar por questão virou consenso entre quem se prepara para a prova de residência médica, e com razão. O problema é que o consenso parou aí. Quase todo mundo faz questão, poucos corrigem, e a palavra corrigir costuma significar conferir se acertou.
A diferença entre as duas coisas é o assunto deste texto, porque ela custa pouco tempo e muda o que sobra do seu estudo em seis meses.
O que significa corrigir uma questão, na prática
Corrigir é reconstruir o caminho que te levou até a alternativa que você marcou. Não é olhar a letra certa, ler o comentário e seguir. É parar por um minuto e responder quatro perguntas em sequência.
- Por que a alternativa certa está certa? Diga com suas palavras, sem repetir o comentário.
- Por que cada uma das outras está errada? A que parecia mais atraente merece atenção maior, porque foi ela que quase te pegou.
- O que exatamente me faltou? Escolha um dos três: conteúdo que eu não tinha estudado, leitura apressada do enunciado, ou uma certeza que estava errada.
- Em qual tópico, com nome? Cardiologia é grande demais para servir. Insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada é um tópico.
A quarta pergunta é a que mais gente pula, e é a única que produz uma lista útil. Sem nome de tópico, o erro vira sensação, e sensação não se revisa.
Repare que a questão acertada também tem correção. Acertar por eliminação, acertar no chute e acertar sabendo são três coisas diferentes que produzem o mesmo ponto na estatística. Só a terceira é conhecimento, e você é a única pessoa que sabe qual das três aconteceu.
Por que isso tem nome, e por que o nome importa
Essa parada para observar o próprio raciocínio se chama metacognição. O conceito foi cunhado por John Flavell, professor de psicologia em Stanford, em 1979, e descreve a capacidade de pensar sobre o próprio pensamento: saber o que você sabe, saber o que você não sabe, e perceber a diferença.
O nome importa porque ele muda a natureza do trabalho. Enquanto o erro for um evento (errei a questão 47), a resposta possível é fazer mais questões. Quando o erro vira uma informação sobre a estrutura do que você sabe (eu confundo os critérios de dois diagnósticos parecidos), a resposta passa a ser específica, e uma revisão de dez minutos resolve o que cem questões a mais não resolveriam.
Por que confiar na própria percepção não funciona
Aqui está a parte incômoda. A intuição sobre o próprio desempenho é um instrumento ruim, e isso foi medido em médicos.
Em 2006, uma revisão publicada no JAMA reuniu 17 estudos que comparavam a nota que médicos e residentes davam ao próprio desempenho com a avaliação que observadores externos faziam do mesmo desempenho. Em 13 das 20 comparações, a autoavaliação teve relação pequena, nula ou invertida com a competência medida de fora.
Invertida é a palavra que merece parar você. Em parte dos casos, quem se avaliava melhor era quem performava pior. Os palpites mais errados vieram justamente dos participantes menos habilidosos e mais confiantes.
Se a sua sensação de domínio não acompanha o seu domínio, a correção precisa produzir evidência, não impressão.
É por isso que a correção termina com um tópico escrito, e não com um sentimento. O escrito é conferível na semana seguinte. O sentimento se atualiza sozinho, e sempre para melhor.
Termômetro ou alavanca: a diferença que aparece em meses
Quem responde a questão, confere o gabarito, vê o resultado e vai para a próxima usou aquela questão como termômetro. Ela mediu um estado e não mudou nada. Cem questões assim medem cem vezes.
Quem usa a mesma questão para dissecar por que cada alternativa estava errada, comparar com o que já sabia e traçar a relação entre as duas coisas usou a questão como alavanca. O segundo caminho é mais lento por questão e mais rápido por mês.
A conta costuma assustar quem está com o cronograma apertado, então vale dizê-la com número redondo: trinta questões corrigidas assim ocupam mais tempo que sessenta conferidas no gabarito, e deixam mais coisa de pé em julho. A régua não é quantas você fez hoje, é quantas você não erraria de novo.
Como começar amanhã, sem refazer o cronograma
- Escolha um bloco menor. Se você faz cinquenta questões por dia, faça trinta e corrija as trinta.
- Tenha um lugar só para os tópicos que apareceram. Uma lista corrida serve, desde que seja sempre a mesma.
- Escreva o tópico com nome, e ao lado dele qual dos três motivos foi: conteúdo, leitura ou certeza errada.
- Uma vez por semana, leia a lista antes de estudar. Os nomes que se repetem são o seu plano da semana, prontos.
- Transforme em cartão de revisão o que for fato isolado, e em nova leitura o que for raciocínio inteiro. São coisas diferentes e pedem tratamento diferente.
O quinto item costuma ser o que resolve o incômodo de quem já tentou caderno de erros e abandonou. Caderno vira cemitério quando tudo entra nele igual. Fato isolado pede repetição espaçada, raciocínio quebrado pede releitura do assunto, e misturar os dois faz a revisão parecer inútil nos dois casos.
Onde uma plataforma ajuda, e onde ela não substitui você
Nada aqui depende de ferramenta. Papel e caneta fazem tudo isso, e por muito tempo foi assim que se fez.
O que a ferramenta resolve é a parte chata: guardar o tópico junto da questão que o gerou, trazer de volta na hora certa em vez de na hora que você lembrar, e mostrar quais nomes se repetem sem você precisar contar. A Medlibri foi desenhada em torno disso, com o caderno de erros e os cartões nascendo da própria questão que você acabou de errar.
A parte que continua sendo sua é a pergunta do começo do texto. Nenhum sistema responde por você o que exatamente te faltou naquela questão, e é justamente essa resposta que faz o resto funcionar.
Referências
- John H. Flavell, American Psychologist, 1979.
- Davis DA e colaboradores, JAMA, 2006, volume 296, número 9, páginas 1094 a 1102.