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Como usar caderno de erros para a prova de residência

Saber como usar caderno de erros para a prova de residência começa pela seleção. Entra primeiro a questão que você errou tendo certeza da resposta, porque é nela que aparece o que você julgava saber sem saber; a errada na dúvida vem depois. Antes de abrir o comentário, anote quanta certeza tinha, e depois escreva com as suas palavras, em forma de pergunta, o que deveria saber. A entrada volta em data marcada, em vez de ficar parada numa lista relida quando dá. O erro ensina, desde que caia perto da resposta certa e a resposta certa chegue junto. O caderno existe porque a memória guarda os próprios erros de forma enviesada.

Por Equipe Medlibri. Atualizado em

O caderno de erros costuma morrer do mesmo jeito: cresce rápido, com toda questão errada copiada para dentro, até fechar de vez, porque reler duzentas questões erradas é um programa que o cronograma engole na primeira semana apertada. Um caderno que rende depende de três decisões: o que entra, como entra e quando volta.

O que entra é a decisão que mais pesa. O que você julga saber sem saber não pode ser anotado de antemão, porque, visto de dentro, tem cara de conhecimento. Só que ele tem um lugar onde aparece com nome: a questão respondida com segurança que o gabarito desmentiu. É por ela que o caderno começa; o resto do que saiu errado entra depois.

O que Sócrates e Feynman fizeram com o que não sabiam

Na Apologia de Platão, o oráculo de Delfos responde que não há homem mais sábio que Sócrates. Ele não aceita o elogio: sai atrás de alguém mais sábio que desminta o oráculo, interrogando políticos, poetas e artesãos. O político julgava saber o que não sabia; os poetas diziam coisas belas sem saber o que diziam; os artesãos sabiam coisas que ele não sabia, só que, por dominarem o ofício, julgavam saber também o resto. A vantagem que ele reivindica é declaradamente pequena: assim como não sabe, também não julga saber.

Segundo a biografia que James Gleick publicou em 1992, Richard Feynman, preparando o exame oral de qualificação do doutorado, decidiu não revisar a física que já dominava. Foi se isolar no MIT, abriu um caderno em branco e escreveu nele, em tradução livre, "caderno das coisas que eu não sei". Passou semanas desmontando a física ramo por ramo, atrás das bordas cruas.

As duas cenas têm a mesma forma: alguém com fama de competente vai conferir onde o saber acaba. Para você, que ainda vai prestar a prova, o instrumento que mostra esse limite é a questão respondida com certeza e conferida contra o gabarito da banca.

Quando errar antes de estudar ensina mais do que ler primeiro

Em 2024, um ensaio randomizado publicado no JAMA Network Open sorteou 212 residentes de medicina de emergência, de sete programas americanos, em três grupos que iam aprender a interpretar tomografia de crânio. Os três viram os mesmos casos. Um respondeu perguntas difíceis sobre eles antes de qualquer aula e errou 51,4% delas; outro, também sem aula antes, respondeu perguntas fáceis; o terceiro teve a aula primeiro. Entre os 150 que fizeram a prova final, em casos novos o grupo que mais errou chegou a 60,6%, contra 45,2% do grupo das perguntas fáceis e 40,9% do grupo da aula primeiro; na comparação com o grupo das perguntas fáceis, o próprio estudo atribuiu 87,2% da diferença ao número de erros no treino. A trava vem do mesmo ensaio: em casos de rotina, parecidos com os do treino, os três grupos empataram.

São médicos já em treinamento, que conheciam a tomografia de crânio sem dominá-la; para você, que ainda vai prestar a prova, vale o sentido do achado, só que no caderno ele depende de duas condições.

A primeira é que o erro precisa cair perto da resposta certa: num experimento de 2012 com universitários de Columbia aprendendo pares de palavras, gerar o erro antes de ver a resposta venceu a leitura quando as palavras tinham alguma relação entre si. Quando não tinham, não trouxe vantagem: ficou abaixo da leitura mais longa no primeiro experimento, 17% contra 25%, e empatou no segundo. A segunda é que a resposta certa precisa chegar junto: em 2008, Butler e Roediger deram múltipla escolha a 72 universitários de psicologia da Washington University em St. Louis, e quem não viu a resposta certa repetiu em parte, numa prova uma semana depois, a alternativa errada que tinha marcado.

No mesmo experimento de Columbia, logo depois do teste, os participantes ordenaram os métodos por quanto achavam ter aprendido e puseram a geração de erro em penúltimo, quando o resultado dela foi o primeiro. Você provavelmente também não sente o erro ensinando, por isso responder antes de estudar precisa ser decisão tomada de antemão.

Por que o caderno precisa ser escrito, e não lembrado

A memória dos próprios erros tem defeito, e o defeito tem direção. Em 2005, Kruger, Wirtz e Miller examinaram 1.561 provas de psicologia introdutória da University of Illinois atrás de marcas de borracha e acharam 3.291 respostas trocadas: 51% delas iam de errada para certa, contra 25% de certa para errada. Ainda assim, numa amostra sorteada de 51 desses alunos, 75% achavam que a primeira resposta tinha mais chance de estar certa.

A explicação do artigo é a memória, que guarda a troca que saiu errada enquanto as que deram certo escapam. O estudo é com alunos de um curso introdutório de psicologia, por isso o que se leva daqui é a direção: o registro do erro precisa ficar fora da sua cabeça.

A ordem de entrada e a data de volta vêm de dois estudos, que o artigo sobre questões comentadas detalha. Em 2001, com perguntas de conhecimento geral e reteste minutos depois da correção, o erro dado com muita certeza foi o mais corrigido. Em 2011, com 50 universitários da Duke University e perguntas de ciência, essa vantagem ainda aparecia uma semana depois; só que, nesse mesmo teste, a proporção de erros corrigidos tinha caído de 86% para 56%, e os erros de alta certeza já começavam a voltar. Daí a data em cada entrada.

O caderno de erros que rende guarda primeiro a questão que você errou tendo certeza, porque é nela que aparece, com nome, o que você julgava saber sem saber.

O que a emoção faz com o caderno, e o que ela não faz

Na revisão sobre aprender com erros que Janet Metcalfe publicou em 2017 na Annual Review of Psychology, a correção do erro confiante tem dois fatores que se somam: a surpresa de descobrir o erro numa resposta dada com certeza, que puxa a atenção para a correção, e o conhecimento em volta desse erro, que costuma cair num assunto que você conhece melhor. Já uma onda cerebral parecida com a que se associa à emoção desagradável no erro não mostrou correlação discernível com a correção.

Numa metanálise de 2008 sobre treinamento que encoraja o erro, com 24 estudos e 2.183 pessoas, a maioria em treinamento de software, o ganho foi maior para levar o aprendido a tarefas novas, e o incentivo explícito a errar e aprender com o erro apareceu como um dos elementos que funcionam; a revisão de 2017 ainda cita estudo em que instruções para tirar a carga negativa do erro melhoraram o treinamento. A emoção pode decidir se você fica na frente do erro o tempo que ele pede, ou se vira a página. A revisão não a põe como motor da correção e conclui que o receio de reações emocionais ruins ao erro parece exagerado quando o erro é tratado sem punição.

Por isso a entrada diz o que faltou, sem adjetivo sobre quem errou: um "que vergonha" na margem só afasta você da página.

Como usar caderno de erros para a prova de residência, na prática

São cinco passos, todos possíveis com papel e caneta.

  • Responda antes de estudar quando o tema for vizinho de algo que você já estudou; num tema que você nunca viu, leia primeiro.
  • Antes de abrir o comentário, anote quanta certeza você tinha: é a informação que o gabarito não traz, e a que decide a prioridade.
  • A questão que você errou tendo certeza entra primeiro; a errada na dúvida entra depois, com prioridade menor.
  • Escreva o que você deveria saber com as suas palavras, em forma de pergunta, sem copiar o comentário: é o que faz a volta virar evocação em vez de releitura. Para nomear o que faltou, use as quatro perguntas do artigo sobre como corrigir questões.
  • A entrada volta como pergunta, em data marcada; quanto esperar até a primeira volta, o artigo sobre cronograma de repetição espaçada calcula.

Vale a honestidade: na busca que fizemos, não apareceu estudo que ponha o próprio caderno de erros à prova como intervenção. O que tem evidência são os mecanismos de cada passo: o erro perto da resposta certa, a resposta certa junto, a prioridade do erro confiante e a volta agendada. O caderno junta os quatro.

Na Medlibri, cada questão errada no banco de questões fica a um toque do caderno de erros: a entrada nasce presa à questão de prova real que a gerou, com a resolução comentada, alternativa por alternativa, ao lado; a correção pergunta o que faltou, e a entrada volta como pergunta pela mesma revisão espaçada dos flashcards.

Se o seu caderno anterior ficou fechado, o diagnóstico não é de caráter. Ele guardava tudo, sem ordem de prioridade, sem data de volta e com a vergonha colada na página. O que falhou foi a técnica, que se troca na próxima questão: quando uma sair errada com você jurando a resposta, abra o caderno por ela.

Referências

  1. Platão, Apologia de Sócrates, passagens 20e a 22e.
  2. James Gleick, Genius: The Life and Science of Richard Feynman, 1992.
  3. Aliaga L e colaboradores, JAMA Network Open, 2024, volume 7, número 9, e2431600.
  4. Huelser BJ e Metcalfe J, Memory & Cognition, 2012, volume 40, número 4, páginas 514 a 527.
  5. Butler AC e Roediger HL, Memory & Cognition, 2008, volume 36, número 3, páginas 604 a 616.
  6. Kruger J, Wirtz D e Miller DT, Journal of Personality and Social Psychology, 2005, volume 88, número 5, páginas 725 a 735.
  7. Butterfield B e Metcalfe J, Journal of Experimental Psychology: Learning, Memory, and Cognition, 2001, volume 27, número 6, páginas 1491 a 1494.
  8. Butler AC, Fazio LK e Marsh EJ, Psychonomic Bulletin & Review, 2011, volume 18, número 6, páginas 1238 a 1244.
  9. Metcalfe J, Learning from Errors, Annual Review of Psychology, 2017, volume 68, páginas 465 a 489.
  10. Keith N e Frese M, Journal of Applied Psychology, 2008, volume 93, número 1, páginas 59 a 69.

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